Relacionamentos de casal em Constelação Familiar Sistêmica

Relacionamento Conjugal na Perspectiva da Constelação Familiar de Bert Hellinger: proposta de organização do artigo

Problema de pesquisa

Como a teoria da Constelação Familiar de Bert Hellinger compreende a formação, os conflitos e a manutenção dos relacionamentos conjugais, e quais são os limites dessa abordagem à luz da literatura científica contemporânea?

Objetivo geral

Analisar os fundamentos da Constelação Familiar de Bert Hellinger aplicados ao relacionamento conjugal, discutindo seus principais conceitos e suas contribuições e limitações no contexto acadêmico.

Objetivos específicos

- Apresentar os fundamentos da Constelação Familiar.
- Compreender o papel da família de origem na constituição do casal.
- Discutir as Ordens do Amor aplicadas ao relacionamento conjugal.
- Analisar os conceitos de pertencimento, hierarquia, equilíbrio e inclusão.
- Examinar criticamente a produção científica sobre a abordagem.


1. A família de origem como fundamento da vida conjugal

Segundo Bert Hellinger, ninguém inicia um relacionamento apenas como indivíduo. Cada pessoa leva consigo sua história, sua família, seus valores, suas crenças, seus traumas, seus vínculos afetivos e suas formas de amar.

Assim, o casal representa o encontro de dois sistemas familiares diferentes.

É nesse contexto que Hellinger afirma que "as famílias de origem falam línguas diferentes". Cada parceiro aprendeu uma maneira particular de expressar amor, resolver conflitos, lidar com dinheiro, educar os filhos e exercer os papéis familiares.



2. O lugar dos pais na construção da identidade

Na teoria de Hellinger, os pais ocupam um lugar insubstituível.

A frase "Quem rejeita os pais, rejeita a si e também o parceiro" expressa a ideia de que a aceitação da própria origem favorece a construção da identidade pessoal.

Essa aceitação não significa aprovar comportamentos inadequados ou negar experiências dolorosas, mas reconhecer que a vida foi recebida por meio deles.



3. O casal como um novo sistema familiar

Ao formar uma união, surge um novo sistema.

Na perspectiva da Constelação Familiar, esse sistema passa a ter prioridade sobre as famílias de origem.

Isso não implica abandonar pai e mãe, mas compreender que o relacionamento conjugal exige autonomia emocional para construir novos acordos, novos valores e uma identidade própria.

O casal deixa de viver para o passado e passa a construir um projeto comum voltado para o futuro.

---

4. As Ordens do Amor no relacionamento conjugal
Hellinger descreve três princípios fundamentais.

Pertencimento

Todos os membros da família possuem direito de pertencer ao sistema.

Exclusões, rejeições ou esquecimentos podem, segundo essa abordagem, gerar desequilíbrios nas gerações seguintes.

Hierarquia

Quem veio antes possui precedência sobre quem veio depois.

No casamento, o parceiro não substitui pai ou mãe, assim como os filhos não devem ocupar o lugar do casal.

Equilíbrio

Os relacionamentos tornam-se mais saudáveis quando existe reciprocidade entre dar e receber.


5. A repetição de padrões familiares

Um dos conceitos mais conhecidos da Constelação Familiar é a tendência de repetição de padrões.

Segundo Hellinger, conflitos não elaborados podem influenciar as gerações seguintes.

Expressões como:

- "Eu faço por você."
- "Olhe para mim."
- "Vou carregar sua dor."

representariam tentativas inconscientes de compensação dentro do sistema familiar.


6. Construindo um novo relacionamento

Para Hellinger, o relacionamento somente amadurece quando o casal consegue deixar o passado em seu devido lugar.

Isso inclui abandonar posições rígidas de vítima ou agressor e reconhecer que a vida segue em direção ao futuro.

Nesse contexto, frases como:
"Eu tomo você como você é."
e
"Eu te liberto e também me liberto."

representam movimentos simbólicos de reconhecimento e encerramento de vínculos.


7. O lugar de cada pessoa

Uma pergunta central na Constelação Familiar é:

Que lugar estou ocupando neste relacionamento?

Quando um parceiro assume funções que pertencem aos pais, aos filhos ou a outros familiares, podem surgir conflitos decorrentes da confusão de papéis.

Na perspectiva de Hellinger, ocupar o próprio lugar é uma condição para relações mais equilibradas.


8. Discussão científica

Embora a Constelação Familiar tenha ampla difusão em diferentes contextos, sua fundamentação científica permanece limitada.

Os princípios apresentados por Bert Hellinger constituem uma construção teórica e fenomenológica, utilizada por diversos profissionais, mas ainda carecem de evidências empíricas robustas que sustentem sua eficácia clínica.

Assim, no campo acadêmico, é importante distinguir entre a interpretação proposta pela Constelação Familiar e os conhecimentos produzidos por pesquisas científicas baseadas em métodos experimentais e revisões sistemáticas.

---

Considerações finais

A teoria de Bert Hellinger propõe que o relacionamento conjugal seja compreendido como o encontro de dois sistemas familiares. Seus conceitos enfatizam o reconhecimento da família de origem, o pertencimento, a hierarquia, o equilíbrio nas relações e a construção de um novo sistema familiar.

Independentemente das controvérsias científicas, essa abordagem contribuiu para ampliar as reflexões sobre a influência das relações familiares na vida conjugal. Entretanto, sua utilização em contextos clínicos e acadêmicos requer uma análise crítica, distinguindo seus pressupostos teóricos das evidências científicas atualmente disponíveis.





Relacionamento de Casal e Constelação Familiar

1. Estar no próprio lugar

No relacionamento, cada pessoa é convidada a ocupar o seu lugar de adulto.

Isso significa assumir a responsabilidade pela própria vida, sem esperar que o parceiro ocupe o papel de pai, mãe, salvador ou filho.

2. A relação com os pais

Bert Hellinger afirma:

«"Quem rejeita os pais, rejeita a si e também o parceiro."»

Na visão da constelação familiar, reconhecer os pais como eles são — sem negar sua existência ou importância — ajuda a fortalecer a própria identidade. Isso não significa concordar com tudo o que fizeram, mas reconhecer que deles recebemos a vida.

3. Não existe apenas certo e errado

Em vez de buscar culpados, a proposta é compreender a história de cada pessoa.

Cada membro da família agiu dentro dos recursos e das circunstâncias que possuía naquele momento.

4. O casal forma um novo sistema

Quando duas pessoas se unem, duas histórias familiares também se encontram.

Na família do outro somos estrangeiros.

As famílias de origem possuem costumes, valores, crenças e formas diferentes de amar. É como se falassem línguas diferentes.

O desafio do casal é construir uma linguagem comum.

5. O sistema atual tem prioridade

Na visão sistêmica, depois que o casal é formado, o relacionamento atual passa a ter prioridade sobre a família de origem.

Isso não significa abandonar ou renunciar aos pais, mas estabelecer novos limites para que o casal possa construir sua própria história.

6. Honrar as duas famílias

Nenhuma família é superior à outra.

Cada uma tem seu valor e sua contribuição.

Reconhecer e respeitar ambas favorece o relacionamento e a educação dos filhos.

7. "Eu tomo você"

Essa expressão representa aceitar o parceiro como ele é, juntamente com sua história, suas alegrias, suas dores e sua família.

8. Padrões que se repetem

Quando conflitos do passado não são elaborados, existe a possibilidade de repetir padrões familiares nas relações atuais.

Por isso, é importante olhar também para a própria história.

9. Olhar para frente

Construir um novo relacionamento exige deixar o passado no lugar dele.

É possível reconhecer antigas dores, papéis de vítima ou agressor e, ainda assim, escolher caminhar em direção ao futuro.

A vida segue para a frente.

10. Todos pertencem

Na constelação familiar, considera-se que todos os vínculos tiveram importância.

Cada pessoa que passou pela nossa vida deixou aprendizados e faz parte da nossa história.

11. Não é possível mudar o outro

O único movimento que realmente depende de nós é a nossa própria transformação.

Em vez de tentar mudar o parceiro, podemos permitir que nós mesmos sejamos transformados.

12. Qual é o meu lugar?

Uma pergunta importante é:

Que lugar estou ocupando neste relacionamento?

Quando alguém ocupa um lugar que não lhe pertence, podem surgir conflitos e desequilíbrios.

13. Libertação

Alguns relacionamentos chegam ao fim.

Nesses casos, um movimento de respeito pode ser expresso simbolicamente pelas palavras:

"Eu te liberto e também me liberto. Você foi muito importante na minha vida."

14. Amor fora de ordem

Segundo Bert Hellinger, muitos conflitos surgem quando a ordem do sistema é rompida.

Na prática da constelação familiar, uma hipótese é que pessoas ou acontecimentos excluídos da história familiar podem influenciar as gerações seguintes. Essa é uma interpretação própria dessa abordagem.

Perguntas para reflexão

- Estou ocupando meu lugar de adulto?
- O que ainda carrego da minha família de origem?
- Consigo respeitar a família do meu parceiro sem abandonar a minha?
- Estou tentando mudar o outro ou disposto(a) a mudar a mim mesmo(a)?
- Qual padrão da minha história pode estar se repetindo?
- O que preciso deixar no passado para construir um relacionamento novo?


Relacionamento Conjugal na Perspectiva da Constelação Familiar de Bert Hellinger: uma análise teórica e crítica

Resumo

A Constelação Familiar Sistêmica, desenvolvida por Bert Hellinger, tornou-se uma abordagem amplamente difundida em contextos terapêuticos, educacionais e de mediação de conflitos. Entre seus principais pressupostos estão as chamadas "Ordens do Amor", que propõem que a qualidade dos relacionamentos depende do pertencimento, da hierarquia e do equilíbrio entre dar e receber. No contexto conjugal, Hellinger sustenta que a aceitação da família de origem, o reconhecimento dos pais e a construção de uma nova unidade familiar favorecem relações mais equilibradas. O presente artigo apresenta uma revisão teórica desses conceitos e discute criticamente sua inserção no campo acadêmico, considerando a literatura científica contemporânea.

Palavras-chave: Constelação Familiar; Bert Hellinger; Relacionamento Conjugal; Família; Terapia Sistêmica.

1. Introdução

Os relacionamentos conjugais constituem um dos principais objetos de estudo das ciências humanas e da saúde, envolvendo aspectos psicológicos, sociais, culturais e familiares. Entre as diferentes abordagens voltadas à compreensão das relações familiares, destaca-se a Constelação Familiar Sistêmica, criada por Bert Hellinger nas décadas de 1970 e 1980.

Segundo Hellinger, os conflitos vividos pelo casal podem estar relacionados a dinâmicas presentes na família de origem e à ruptura das chamadas "Ordens do Amor", princípios que, em sua teoria, organizam o funcionamento dos sistemas familiares. Entre esses princípios encontram-se o pertencimento, a precedência (hierarquia) e o equilíbrio nas relações.

Embora a Constelação Familiar tenha alcançado ampla divulgação em diferentes países, suas bases teóricas permanecem objeto de intenso debate. Enquanto seus praticantes relatam benefícios clínicos e pessoais, revisões científicas e pesquisadores apontam que as evidências disponíveis são insuficientes para demonstrar sua eficácia clínica e que muitos de seus pressupostos não possuem validação empírica robusta.

2. Relacionamento conjugal segundo Bert Hellinger

Na perspectiva de Hellinger, o casal constitui um novo sistema familiar que deve ocupar posição prioritária em relação às famílias de origem. Isso não significa romper vínculos com os pais, mas reconhecer que o compromisso conjugal estabelece uma nova ordem de pertencimento e responsabilidade.

O autor sustenta que aceitar os próprios pais representa um movimento de integração da própria identidade. Nesse contexto, afirma: "Quem rejeita os pais, rejeita a si e também o parceiro." Tal afirmação deve ser compreendida como um princípio interno da teoria de Hellinger, e não como uma conclusão estabelecida pela pesquisa científica.

Outro conceito relevante refere-se ao encontro entre duas histórias familiares. Cada parceiro traz consigo valores, crenças, padrões de comunicação e formas distintas de compreender o amor. Assim, pode-se afirmar metaforicamente que "as famílias de origem falam línguas diferentes". A construção de um relacionamento saudável dependeria da criação de uma nova linguagem compartilhada, baseada no respeito recíproco e na cooperação.

Ainda segundo Hellinger, muitos conflitos conjugais decorrem da repetição inconsciente de padrões familiares transmitidos entre gerações. A proposta da Constelação Familiar consiste em tornar essas dinâmicas visíveis para favorecer novas formas de relacionamento.

3. Discussão

A literatura científica reconhece a relevância das relações familiares para o desenvolvimento humano e para a qualidade dos vínculos afetivos. Entretanto, os pressupostos específicos da Constelação Familiar não contam, até o momento, com evidências científicas suficientes que sustentem sua eficácia clínica ou expliquem seus mecanismos de funcionamento. Revisões sistemáticas recentes concluíram que os estudos disponíveis apresentam baixa qualidade metodológica e não permitem afirmar benefícios clínicos consistentes.

Além disso, parte da literatura especializada considera a Constelação Familiar uma prática não fundamentada nos critérios científicos contemporâneos, recomendando cautela em sua utilização como intervenção psicológica ou psicoterapêutica.

4. Considerações finais

A Constelação Familiar de Bert Hellinger oferece uma interpretação específica sobre os relacionamentos conjugais, enfatizando pertencimento, reconhecimento da família de origem, construção de um novo sistema familiar e responsabilidade individual. Esses conceitos têm influenciado práticas terapêuticas e grupos de desenvolvimento pessoal.

Contudo, do ponto de vista acadêmico, é necessário distinguir entre os pressupostos teóricos da abordagem e o conhecimento produzido por pesquisas científicas. A produção científica atual não confirma a eficácia clínica da Constelação Familiar, indicando a necessidade de estudos mais rigorosos para avaliar suas hipóteses e aplicações.

Referências (ABNT)

HELLINGER, Bert; HÖVEL, Gabriele Ten. Constelações familiares: o reconhecimento das ordens do amor. São Paulo: Cultrix, 2001.

HELLINGER, Bert. Ordens do amor: um guia para o trabalho com constelações familiares. São Paulo: Cultrix.

CEZAR-FERREIRA, Verônica A. da Motta. Constelação familiar sistêmica: considerações. Revista Brasileira de Terapia Familiar, 2024.

Family Constellations for All Clinical Conditions: A Systematic Review and Meta-analysis Showing a Lack of Supporting Evidence. medRxiv, 2026.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Modelo de Plano de Gestão Escolar

Granulokine

Para que serve o Tarô Terapêutico?